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Horta Comunitária Nutrir alinha-se com os objetivos do Desenvolvimento Sustentável

Divulgado em: 29/09/2018

 

Concebido com fins educativos, HCN da UFRN propõe uma abordagem sustentável do sistema alimentar, visando a promoção da saúde humana e ambiental, e privilegiando as Plantas Alimentícias Não Convencionais – as chamadas PANCs – da biodiversidade brasileira.

 

OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E A FOME NO MUNDO

 

Construídos sobre o legado dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para concluir o que não foi alcançado, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas propostas pela Agenda universal da Organização das Nações Unidas – ONU, buscam concretizar os direitos humanos de todos e alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas. Eles são integrados e indivisíveis, e equilibram as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental. Propostos em 2015, os objetivos e metas foram pensados para estimular a ação para os 15 anos seguintes, em áreas de importância crucial para a humanidade e para o planeta. As determinações encontram-se no documento publicado na página da ONU na internet – Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/).

 

Uma das determinações da Agenda encontra-se em acabar com a pobreza e a fome, em todas as suas formas e dimensões, e garantir que todos os seres humanos possam realizar o seu potencial em dignidade e igualdade, em um ambiente saudável. Alinhado com este propósito geral, a exemplo de todos os demais, o objetivo 2 especifica que até 2010, os Países associados promovam ações para “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, a melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável, garantindo o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças, a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano.

 

Apesar das intenções, pelo terceiro ano consecutivo, a agência das Nações Unidas que lidera o esforço internacional para acabar com a fome, a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, anunciou aumento no número de pessoas que sofre com o problema da fome. No caso da América Latina e do Caribe, 39,3 milhões de pessoas vivem subalimentadas na região, um aumento de 400 mil pessoas desde 2016. Em nível mundial, quase 821 milhões de pessoas – cerca de uma em cada nove – foram vítimas da fome em 2017, um aumento de 17 milhões em relação ao ano anterior, segundo O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018 (SOFI). O Relatório fonte desta informação encontra-se na página da FAO no Brasil (http://www.fao.org/state-of-food-security-nutrition/es/).

 

Representante Regional da FAO, Julio Berdegué explicou que o aumento da fome no nível regional segue a tendência global e nos afasta do cumprimento da meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2- Fome Zero até 2030. 

 

BRASIL: AVANÇOS ATÉ QUANDO?

 

É importante destacar o significado abrangente do conceito de fome, que refere-se não apenas à falta de alimento mas, também, a um conjunto de fatores que promovem sua qualidade, garantindo saúde e qualidade de vida. Para a FAO, a fome é considerada sinônimo de subalimentação crônica, isto é, quando uma pessoa não é capaz de adquirir alimento suficiente para suprir as necessidades calóricas mínimas diárias, pelo período de um ano.

 

O conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) foi estabelecido no Brasil por meio de um processo amplamente participativo e, por isso, reflete uma visão complexa, abrangente e integrada: uma visão que tem contribuído para políticas de Estado intersetoriais no Brasil.

 

“Hoje, o Brasil é um país de referência em políticas públicas de combate à fome. Mas para que continue no caminho certo e atinja a meta até 2030, é necessário que os investimentos em políticas públicas focadas às populações mais vulneráveis continuem acontecendo de maneira efetiva”, destaca Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil.

 

De acordo com o Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República – CONSEA, Segurança Alimentar e Nutricional é a “realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais tendo como base práticas alimentares promotoras da saúde, que respeitam a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis.” http://www4.planalto.gov.br/consea/acesso-a-informacao/institucional/conceitos

 

A dieta padrão global é o resultado de uma cadeia de produção-distribuição-consumo globalizada, em que nem os agricultores, nem os consumidores contam. Pensamos que decidimos o que comer, mas isso não acontece. Mesmo vivenciando uma expansão populacional sem precedentes, 90% da produção atual de alimentos para alimentação humana provêm do cultivo em torno de apenas 20 espécies. A gradativa simplificação de nossa alimentação cotidiana, está diretamente associada a vários problemas que afetam a saúde e a biodiversidade do planeta.

 

SISTEMA ALIMENTAR VERSUS SAÚDE.

 

É o que explica detalhadamente o recente estudo “Aumentando a homogeneidade nas cadeias alimentares globais e as implicações na segurança alimentar”, quando afirma que ao caminharmos para uma “dieta globalizada”, estamos na direção de “uma potencial ameaça para a segurança alimentar”. Em primeiro lugar, porque apesar de consumir mais calorias, proteínas e graxas que há 50 anos, nossa alimentação é menos variada e é mais difícil ingerir os micronutrientes necessários para o organismo. Em consequência, afirmam os autores, “a preferência por alimentos ricos energeticamente e baseados em um número limitado de cultivos agrícolas globais e produtos processados associa-se, na atualidade, ao aumento de doenças não transmissíveis como diabetes, problemas de coração ou alguns tipos de câncer”. (Increasing homogeneity in global food supplies and the implications for food security https://www.wur.nl/upload_mm/0/9/2/f30c69d6-38be-4b61-bdf5-7d5247b8ad48_Khoury_et_al_pnas%20full.pdf)

 

Em segundo lugar, a homogeneização do que comemos torna-nos mais vulneráveis às colheitas frustradas ou às pragas, que, prevê-se, aumentarão com a intensificação das mudanças climáticas. http://caritas.org.br/alimentacao-global-tem-cada-vez-menos-diversidade-afirma-estudo/25185  

 

HORTA COMUNITÁRIA NUTRIR: O LUGAR DAS PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS – PANCS

 

Nesse contexto onde o sistema alimentar encontra-se mais voltado para os fins de lucro do agronegócio e das grandes empresas alimentícias, do que para a saúde e alimento das populações, a recuperação do conhecimento e consumo de Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANCs, é fundamental para minimizar os impactos negativos do atual padrão alimentar e da agricultura moderna. É o que tem feito o projeto Horta Comunitária Nutrir-HCN, desenvolvido por vários setores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN.

 

O estudo, produção e consumo de PANCs tem sido estimulados, no projeto Nutrir, como uma das alternativas possíveis ao sistema alimentar vigente, que desmata, polui, envenena, além de ter uma estrutura voltada para o agronegócio que não necessariamente atende aos interesses do consumidor e, não raro, explora e trabalhador rural e prejudica o pequeno agricultor.

 

Por suas características, as PANCs podem ser um forte vetor de proteção da sociobiodiversidade local e da soberania alimentar. Espécies de PANC apresentam elevado valor nutricional, são nativas adaptadas ao clima local e crescem espontaneamente. Ao crescer entre plantas convencionais, as PANCs podem aumentar a produção de alimentos por hectare, como demonstram diversos experimentos onde plantios com maior biodiversidade são mais produtivos que monoculturas.

 

Chanana ou Xanana, como preferem os poetas, é uma flor matinal; adapta-se bem ao sol forte e permanece aberta até por volta das 10 horas; não exige muito trato para se desenvolver. Fica deliciosa como ingrediente na receita de pesto.

 

Apesar de todos os benefícios que agrega, o uso alimentício das PANCs é incomum para a maioria da população, que as conhece muito pouco.

 

Para Michelle Jacob, nutricionista, professora do Dept de Nutrição da UFRN e coordenadora do projeto Nutrir, “pra gente poder saber que essa biodiversidade existe, a primeira coisa é a gente conhecer. Só assim, podendo conhecer e usando de forma consciente, é que a gente pode ter a possibilidade de preservar. A gente não consegue preservar uma coisa que a gente não conhece. Por isso é importante conhecer essa biodiversidade.”

 

Por isso a importância do projeto Nutrir, em particular em um momento onde a sociedade se torna cada vez mais crítica quando se trata de suas escolhas alimentares, em função do crescente acesso a informações sobre o desrespeito – ou mudanças, às leis e ao interesse público e sobre a relação dos poderes constituídos com as demandas da indústria de transgênicos e agrotóxicos. Na contramão do sistema de alimentação vigente, o projeto HCN tem como principais objetivos, promover saúde, produzindo alimentos bons, limpos e justos, e ser uma horta viva e representativa da sociobiodiversidade brasileira.

 

 “A gente tem plantas como a beldroega, uma planta muito rica em ômega 3. É o vegetal verde conhecido, no mundo, como o que tem mais quantidade de ômega 3. Então, por exemplo, a gente sempre se refere, como fonte de ômega 3, a vegetais como a linhaça, ou animais como a sardinha e outros bichos. Mas na nossa região, a beldroega é um vegetal super bem adaptado, está ao nosso redor e a gente pode consumi-la pra ter esse nutriente”, explica Michelle.

 

Em 2017.2 foram objeto de estudo pela HCN, as PANCs Cariru (Talinum triangulare), Beldroega (Portulaca oleracea), Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata), Palma (Opuntia ficus-indica)-; no primeiro semestre de 2018 foi a vez de Camapú (Physalis pubescens), Caruru (Amaranthus viridis), Chanana (Turnera subulata), reconhecida como a Flor da Cidade de Natal, e o Mastruz (Chenopodium ambrosioides). Encontram-se em estudo, durante o segundo semestre letivo, Couvinha (Porophyllum ruderale), Cana do brejo (Costus spicatus), Trapoeraba (Commelina erecta), Monguba (Pachira aquática). 

Suflê de xanana com tofu, pesto de beldroega, bolo salgado de ora-pro-nobis, panqueca verde de bredo, chutney de physalis, nhoque de banana da terra com folhas de bredo ao molho de mastruz, são algumas das receitas produzidas pelos participantes da HCN, com a colaboração de gastrólogos da cidade de Natal, para degustação pós-eventos.

 

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Respectivamente, na primeira imagem, em primeiro plano, berinjela com bredo; atrás, pesto com chanana. Na segunda imagem, nhoque de banana da terra com folhas de bredo ao molho de mastruz.

 

Além da importância das PANCs em si, Jacob ressalta outros aspectos que estão associados ao ecossistema em sua completude, seus aspectos ambientais, culturais e socioeconômicos.

 

“O mais importante não é o que cada alimento tem de nutriente pra dar pra gente, porque sempre vai ser incompleto, porque ele tem um, mas não tem os outros. Então quando a gente fala de biodiversidade, mais importante é pensar que, no conjunto, essa variedade de alimentos vai dar uma contribuição muito ampla de nutrientes pra nossa alimentação, sem a gente causar impacto em uma espécie em específico; porque a gente só vai consumir aquela, fazendo daquela espécie um superalimento, todo mundo atrás daquela espécie, né, aí aumenta o preço no mercado, a gente esgota a possibilidade de produção desse alimento, as pessoas que têm menos condições vão conseguir chegar muito menos perto deles… Então, a biodiversidade, quando eu falo de biodiversidade, estou falando de variedade, e isso é o mais importante. E é só essa variedade que vai ser bem adaptada ao nosso território, vai possibilitar também que diversas pessoas possam ter acesso a esse alimento, independentemente de quanto dinheiro elas tenham…“

 

MELIPONICULTURA COMO ESTRATÉGIA DE VALORIZAÇÃO DA CULTURA E DA BIODIVERSIDADE LOCAL

 

Por serem adaptadas ao local, as PANCS atraem uma variedade de polinizadores o que agrega benefício, inclusive, às espécies convencionais cultivadas, ao repelir pragas agrícolas.

 

Na quarta-feira, 19, participantes da HCN estiveram envolvidos com a instalação de uma casinha de abelha, as Pledeias sp, uma espécie nativa, sem ferrão, popularmente conhecida como abelhas-mosquito. Segundo o agricultor e meliponicultor Francisco Medeiros, técnico em agroecologia com especialização em Economia Solidária e Desenvolvimento regional, pela UFRN, o objetivo é estimular melhores resultados na qualidade dos frutos da Horta Comunitária Nutrir, ao mesmo tempo que contribuir para a conservação de uma espécie que vem sendo ameaçada de extinção, trazendo sérios riscos para os sistemas alimentares do mundo.

 

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A polinização é fundamental para a produção de alimentos sendo um dos principais mecanismos de manutenção e promoção da biodiversidade e os insetos tem este importante papel na agricultura mundial. As abelhas são umas das principais polinizadoras. Estima-se que aproximadamente 73% das espécies vegetais cultivadas no mundo sejam polinizadas por alguma espécie de abelha.  19% por moscas, 6,5% por morcegos, 5% por vespas, 5% por besouros, 4% por pássaros e 4% por borboletas e mariposas.

 

Abelhinhas e pais b - FINAL

 

Para continuar com seu papel essencial a serviço do ecossistema, e a trazer inúmeros benefícios à sociedade através do seu papel na produção de alimento e na conservação da diversidade biológica, os polinizadores dependem da sobrevivência de habitats naturais que vêm sendo alterados sistematicamente, interferindo no sistema e diminuindo a capacidade de fornecimento destes serviços essenciais à sobrevivência humana. Daí porque, ao trabalho de promover a polinização das plantas, associa-se à necessidade de preservação da espécie para que continuem com seu papel fundamental junto à natureza, como explica Francisco.

 

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Neste contexto, este é mais um passo no caminho da sustentabilidade abarcado pelo projeto HCN que, apesar do curto período de atividades, já conquistou prestígio internacional sendo reconhecido pela Organização das Nações Unidas – ONU, em 2018, como uma iniciativa que colabora para promoção da alimentação como direito humano.

 

Com o leque diversificado de suas ações, o Nutrir alinha-se com sete dos dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, entre os quais, mais diretamente:

 

ODS  2. Por atuar na promoção da segurança alimentar e nutricional e da agricultura sustentável;

 

ODS  3. Por promover saúde e bem-estar por meio de ações de Educação Alimentar e Nutricional;

 

ODS  4. Por criar um espaço de formação que garanta aquisição de conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável ao longo da vida para todos;

 

ODS 11. Por promover a urbanização sustentável por meio da implantação de hortas urbanas;

 

ODS 12. Por fazer do consumo sustentável e do uso eficiente dos recursos naturais pautas de ações ecopedagógicas;

 

ODS 13. Por atuar na educação e promoção de ações sobre a mitigação global do clima;

 

ODS 15. Por atuar na promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres e da biodiversidade

 

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Formado por nutricionistas, biólogos, agrônomo, pedagoga, cientistas sociais, gastróloga e administrador, o projeto Nutrir conta com o apoio de diversos departamentos da UFRN. Alunos de várias áreas sustentam o dia-a-dia do projeto, envolvendo-se como bolsistas, voluntários ou participantes eventuais das várias modalidades de ações empreendidas. A comunidade externa à UFRN também é assídua no comparecimento aos eventos promovidos e nos mutirões, que acontecem no primeiro sábado de cada mês do semestre letivo. A agenda do projeto pode ser acompanhada no endereço http://www.nutrir.com.vc/horta/Agenda.pdf

 

Mais informações: www.nutrir.com.vc @nutrirhorta nutrirhorta@reitoria.ufrn.br 

 

Por Jô Carvalho

 

 

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